Cartão de débito ou crédito, qual é o melhor para fazer compras?

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23 / 12 / 2013

Quando quer comprar uma geladeira ou outro produto de maior valor, a confeiteira de nome exótico Gudrun Edeltraud Reuter, 79 anos, junta aos poucos até conseguir o dinheiro. Em um mês são R$ 50, no outro R$ 40, depende de quanto sobrar. Mas de modo algum ela parcela no cartão de crédito. Aliás, ela nunca teve um cartão de crédito. "Acho que as dívidas são o grande problema da sociedade. Todos os países estão endividados. Gasta-se o que não se tem", comenta ela.

A lição de Gudrun para a filha dela, que sempre compra no crédito, é a seguinte: “se você tem dinheiro para pagar juros, que é quando te forçam a guardar, você consegue poupar por livre e espontânea vontade”. Essa (sábia) consciência financeira, diz Gudrun, veio do pai. “Ele nunca teve dívidas, nunca pagou uma prestação. Educação é o que os pais vivem; os filhos se espelham”. Ela prefere pagar remédios, faxineira e outras despesas com dinheiro ou cheque (meio de pagamento cujas transações caíram 49% entre 2008 e o primeiro semestre de 2013 segundo o levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

Gudrun está fora de um mercado que só vem crescendo. Os cartões de crédito movimentaram R$ 249 bilhões no primeiro semestre de 2013, alta de 14,7% em relação ao primeiro semestre de 2012, aponta a Abecs. De modo contrário, o engenheiro David Huertas, 35 anos, usa cartão de crédito para quase todos os seus pagamentos. “É mais fácil identificar os gastos e é mais seguro, porque não preciso andar com dinheiro na carteira”, justifica. Se vai a uma lojinha comprar um chocolate de R$ 1,50, ele paga no cartão. O de débito? Não! “Faz 15 anos que tenho o costume de usar o de crédito, prefiro concentrar minhas compras apenas em um cartão. E tem outro fator, eu só pago na data da fatura”. Sempre que há a possibilidade de parcelar sem juros, ele aproveita. “Se não há cobrança de juros é melhor deixar o dinheiro, para render, e parcelar. É uma maneira de ganhar.” Ele só não paga contas de consumo, como luz e telefone, com o cartão de crédito porque há custos adicionais nesse tipo de transação (o MoneyGuru listou os custos, veja abaixo). Ele e a esposa têm, cada um, apenas um cartão de crédito. “Com essas máquinas que aceitam todas as bandeiras, não precisamos ter vários.”

Esse é o mesmo comportamento financeiro do empresário Murilo Maciel Curti, 30 anos. Ele quer praticidade, sem precisar sacar dinheiro, com a vantagem de ter o controle de uma data certa para pagar – motivo de sua preferência pelo cartão de crédito. “Deixo o débito apenas para emergências.”

Mas apesar do uso frequente do cartão de crédito, David e Murilo nunca tiveram prejuízo com uma das principais desvantagens desse produto: os juros cobrados em caso de atraso do pagamento, ou ainda por quitar apenas o valor mínimo da fatura. Segundo a Abecs, em outubro de 2013 o índice de inadimplência dos cartões foi de 6,8%. Uma queda, quando comparamos com o primeiro trimestre desse ano em questão, quando a inadimplência estava em 7,5%.

“O cartão de crédito representa inúmeros perigos à saúde financeira do consumidor, porém não podemos deixar de considerar as vantagens que ele oferece. Entre essas, e como principal, está a possibilidade de concentrar e controlar diversos pagamentos em uma única data”, avalia Ronaldo Gotlib, consultor financeiro e autor do livro Dívidas? Tô Fora – Um Guia para Você Sair do Sufoco.

Apesar de ser uma ferramenta de consumo que vale a pena quando usado de forma consciente, o cartão de crédito ainda amedronta muitos consumidores. O empresário Ricardo Consani, 28 anos, por exemplo, dificilmente usa esse recurso. “Sempre trabalhei com vendas e minha renda sempre foi variável. Então nunca soube como seria o mês seguinte. Eu não podia fazer dívidas”, conta. As exceções são para compras maiores, como a de seu notebook. “Só usei o cartão de crédito porque não dava para pagar com boleto.”

As altas taxas de anuidades são outro ponto para prestar atenção. Elas podem chegar a mais de R$ 500 para cartões mais VIPs, enquanto outros mais básicos não isentam o consumidor dessa taxa, conforme o levantamento feito por MoneyGuru nesta reportagem.

Já o cartão de débito traz segurança, segundo o consultor Gotlib. “Ele substitui o dinheiro em espécie em grande parte das situações. Podemos ainda citar o controle finaceiro. Quando você usa dinheiro em espécie, principalmente trocado, ele costuma ‘desaparecer’ rapidamente do bolso do consumidor.”

Um estudo realizado pela provedora de serviços de consultoria, terceirização e tecnologia Capgemini revela que os cartões de débito estão engolindo fatias maiores do mercado do que os de crédito. No ano de 2011, por exemplo, o uso de cartões de débito no país aumentou em 23,1%, enquanto o de crédito cresceu apenas 16,3% no mesmo período.

A extensão de redes bancárias, que permitiu o acesso de mais cidadãos a uma conta corrente, é um dos fatores-chave para os pagamentos com cartões de crédito e de débito – o dinheiro vivo está perdendo espaço como meio de pagamento. Já somos o segundo país do mundo em termos de volume de operações feitas com cartões de débito e de crédito, atrás dos Estados Unidos. Em 2010 foram realizadas 20 bilhões de transações eletrônicas no Brasil, contra 13,1 bilhões na Rússia, Índia e China juntas, segundo a Capgemini.