Compulsivo ou mão-de-vaca?

Pode ser ansiedade!

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17 / 12 / 2013

"O que mais me surpreende na humanidade são os homens. Porque perdem a saúde para juntar dinheiro. Depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro."

Essa frase do líder budista Tenzin Gyatso, o 14° Dalai Lama, consegue definir perfeitamente as consequências para aqueles que sofrem de um dos males do século, a ansiedade. Em nosso país, o número de afetados é elevado: um levantamento feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2012, aponta que cerca de 10 milhões de brasileiros foram diagnosticados como ansiosos.

A ansiedade não só leva as pessoas a fazerem compras compulsivas como também levanta uma parede que impede a pessoa de consumir.

“Economizar muito para garantir o futuro é uma ação decorrente de uma visão pessimista, catastrófica, ligada à insegurança”, analisa o psicólogo Nilton Kamigauti.

Em mais de 20 anos de estudo, prática e supervisão em psicoterapia, além de lecionar na Associação Tai Chi Pai Lin, as consequências da ansiedade são assunto recorrente na prática profissional de Kamigauti. Nesta entrevista, ele conta como esse sentimento pode atrapalhar as finanças, a vida pessoal, o desenvolvimento profissional e levar à depressão. 

Muitas pessoas relacionam a ansiedade ao ato de comprar compulsivamente. Mas e o contrário, ou seja, a dificuldade de gastar, também pode acontecer? 
Uma pessoa que poupa muito, normalmente está preocupada com o futuro. Tem uma insegurança. A questão de ter e acumular dinheiro pode gerar uma sensação de segurança para ela. Quanto é o bastante? Quanto é preciso para se sentir seguro? Às vezes é ter uma casa, comprar um terreno. Geralmente essas pessoas aprenderam que se você é abastado, está com o futuro garantido. Se você faz algo novo, é natural se sentir inseguro e ter ansiedade. Economizar muito para garantir o futuro, é uma visão pessimista, catastrófica, ligada à insegurança.

Como alguém que não consegue gastar pode reverter essa questão?
Os sovinas geralmente são muito contidos, precisam fazer exercícios de soltura. Quem é muito preso, precisa fazer atividades como teatro, dança e tudo que possa torná-lo mais extrovertido. Toda a expressão artística e gráfica pode ajudar. Esses exercícios darão um efeito positivo contra o excesso de ansiedade. Fazer coisas novas ativa a ansiedade natural, aquela que vai deixar a pessoa melhor. Normalmente fica monótono sempre repetir coisas que você já sabe. Pessoas saudáveis desejam novidades, porque querem crescer. Ao ir atrás do novo, você sentirá uma dose de ansiedade que motivará o crescimento. 

E no caso das compras por impulso? Como identificar que essa atitude está sendo causada por um nível elevado de ansiedade?
Existe uma falta de controle. A pessoa faz e fala coisas que normalmente não faria se estivesse em sã consciência. Para identificar isso, depende muito do seu autoconhecimento, da sua maturidade. De conhecer quais são os seus mecanismos de fuga. Já tive um paciente que entrou em uma loja para comprar tapauer e quando saiu tinha comprado geladeira, fogão, armário, jogo de mesa, jogo de cama. Ele era um médico, isso independe da capacidade intelectual. Ele tinha um grau de compulsividade muito alto.

Há alguma forma de evitar essa compulsividade?
Tive um paciente com uma técnica bem interessante. Ele comprava vários produtos, os separava no caixa e ia ao cinema. Depois de assistir ao filme, se ele se lembrasse deles, concluía que realmente precisava comprá-los. Se ele esquecesse, ia embora e concluía que não precisava de nada daquilo. Se a pessoa consegue conter os seus impulsos, não irá simplesmente procurar a satisfação imediata.

Quais são os sintomas físicos da ansiedade gerada pelo “estresse financeiro”?
Sensação de morte, taquicardia, falta de ar. Quando a pessoa chega no hospital com esses sintomas, depois de minutos está tudo bem, porque o que estava influenciando era o fator psicológico. Em um nível menos elevado, há aumento da sudorese [transpiração], da frequência cardíaca. No começo do século passado, Jung [Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta criador da psicologia analítica] fez um teste de associação de palavras onde ele media a sudorese da palma da mão da pessoa. Ele verificava a respiração e o tempo de reação de uma resposta a uma palavra que ele lançava aleatoriamente. Ele descobriu que existia uma correlação. Se ele falava uma palavra, dependendo dos complexos da pessoa, ela teria uma transpiração diferente, uma respiração diferente. Isso depois evoluiu para o aparelho detector de mentiras, que mede as tensões do corpo da pessoa. O que se passa na mente, acaba refletindo-se no nosso corpo. Logo, a ansiedade maior causa esses sintomas físicos.

Nas finanças, como podemos classificar o ansioso?
O ansioso queima etapas e vai direto para o objetivo. Ele perde o presente. Uma pessoa com nível alto de ansiedade perde o agora. Pessoas que compram impulsivamente precisam aprender a esperar. No calor das emoções, segure. Como essas pessoas se tornam muito imediatistas, precisam trabalhar outras técnicas diferentes dos sovinas. Para eles, a recomendação é meditação, psicoterapia e outras técnicas corporais que os façam voltarem-se para si próprios.

E quem finge que as dívidas não existem?
Saber o que se passa no extrato bancário, ter um planejamento, é bom. É ter maturidade financeira. Fingir que não existe dívida, evitar olhar para o extrato e deixar para a esposa ou o marido é uma negação. É uma forma negativa de lidar com a situação. Para ter um controle sobre as finanças, é preciso saber o que está se passando, tomar consciência. Verificar onde está tendo saídas em excesso ou economizando demais, e tentar equilibrar tudo. Se estiver com um problema financeiro, não adianta ficar desesperado. Às vezes, levam-se anos para sair do buraco. Comece anotando todos os gastos diariamente. Tome consciência de quanto custa aquele cafezinho diário e o some às contas fixas. Uma vez conquistada essa consciência, a pessoa pode fazer escolhas. Só é preciso tomar cuidado para esse controle não virar algo doentio, como ficar olhando o extrato a todo o momento.

É fácil perceber quando alguém está com um nível alto de ansiedade?
Nem sempre. Muitas pessoas aparentam calmaria, mas na verdade guardam muita tensão. Elas estão com muitos conflitos e, às vezes, nem se dão conta. Normalmente, essas pessoas vão para o caminho da depressão, porque a energia acaba recolhida, não escoada. Então, consequentemente, vai faltar energia. Essa pessoa sempre terá uma visão pessimista, dramática, derrotista.

O que uma pessoa que se considera fracassada pode fazer para mudar a sua perspectiva da situação e as suas atitudes?
Precisa criar uma cronologia. Verificar cada passo. Fazer um planejamento, com datas e metas. Dar um passo, depois dar o seguinte. Uma coisa de cada vez. Pensar em coisas a médio e longo prazo. Viver um dia de cada vez. Mas fazer tudo isso vivendo o presente. Se chegar a data e algo tiver dado errado, fazer correções, adaptações. Outras vezes, irá perceber que vai até ultrapassar a meta planejada.

E qual é o lado bom da ansiedade?
Um pouco de ansiedade faz bem, deixa o raciocínio mais rápido e a memória mais aguçada para reagir. Sempre que há uma previsão de satisfação lidamos com a ansiedade boa. E se mesmo assim o que você previu de positivo deu errado, você vai corrigindo. É o contrário daquelas previsões catastróficas e pessimistas. Sem um pouco de ansiedade temos a apatia. E se você aumenta demais a ansiedade, ela começa a se tornar um transtorno generalizado. Fica irritado e fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo. É aquela curva que passa do ideal e entra no estresse. A memória começa a falhar, o raciocínio não fica tão bom. E ela pode levar a uma síndrome do pânico ou à depressão.